Sala de Situação


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Data da atualização:

02/07/2020, às 10:00h



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PAINEL – UFPI – COVID-19

Ordinariamente atualizado a cada duas semanas, a não ser que precise de dados emergenciais.

Veja também:


Medidas Rígidas de Distanciamento Social Podem Modificar a Trajetória de Crescimento de Óbitos no Estado do Piauí?


Nota Técnica #06 de 01 de julho de 2020.

Emídio Marques de Matos Neto1,4, Roniele Araújo de Sousa1, Beatriz Fátima Alves de Oliveira2, Juliana Soares Severo3, José Maria Pires de Menezes Júnior5,6, Osmar de Oliveira Cardoso1,7, Thiago Pinto Dias8, Bruno Guedes Alcoforado Aguiar9,10.


1Núcleo de Estudos em Saúde Pública (NESP-UFPI).2Fiocruz Piauí.3Programa de Pós-Graduação em Alimentos e Nutrição (PPGAN-UFPI)4Departamento de Educação Física (UFPI); Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família (RENASF-UFPI)5Curso de Engenharia Elétrica (UFPI)6Grupo de Automação e Sistemas Inteligentes (GRASI-UFPI)7Departamento de Bioquímica e Farmacologia (UFPI)8Diretoria de Vigilância em Saúde (PMT)9Departamento de Medicina Comunitária (UFPI)10Centro de Inteligência em Agravos Tropicais Emergentes e Negligenciados (CIATEN)

👉Destaques da nota

● A nota mostra um crescimento constante do número de óbitos por Covid-19 em Teresina, São Luís e Fortaleza;

●Quando avaliamos os óbitos diários por Covid-19, levando em consideração o tamanho da população, verificamos que Fortaleza apresenta uma trajetória descendente, enquanto Teresina e São Luís continuam com trajetória ascendente, com a capital piauiense ultrapassando a capital maranhense a partir do final do mês de maio;

● A mudança na trajetória da curva em Fortaleza e São Luís aconteceu alguns dias após a adoção de medidas mais rígidas de distanciamento social, realizada por decreto dos governos do Ceará e do Maranhão.


  1. Apresentação

O Grupo de Trabalho do Eixo 3 - Sala de situação, parte do Plano de Ação Interinstitucional de Enfrentamento à Covid-19 da UFPI, integrado ao Comitê Gestor de Crise (CGC-UFPI), com representantes de diversas instituições de pesquisa, vem estudando a evolução e os aspectos da pandemia causada por SARS-CoV-2.

Nesta Nota Técnica, analisamos a progressão da Covid-19 nas capitais dos estados do Piauí, Maranhão e Ceará (Teresina, São Luís e Fortaleza, respectivamente), bem como dos referidos estados em sua totalidade, levando em consideração os valores relativos e absolutos de óbitos nessas localidades.

2. Casos de óbitos por Covid-19 em Teresina, São Luís e Fortaleza

Na figura 1, observa-se a evolução de óbitos por Covid-19 na cidade de Teresina, capital do estado do Piauí. Analisando mês a mês, verifica-se que a progressão foi de 02 (dois) óbitos iniciais no dia 30 de maio, para 11 (onze) óbitos no dia 30 de abril; em seguida, houve uma progressão para 85 (oitenta e cinco) óbitos no dia 30 de maio e chegou-se ao dia 26 de junho com um total de 335 (trezentos e trinta e cinco) óbitos em Teresina, representando um aumento de 16 mil vezes o número de casos em menos de 3 meses. Portanto, observado o terceiro indicador condicionante (estabelecido pela Prefeitura Municipal de Teresina) para a reabertura econômica da cidade, conclui-se que a redução contínua dos números de óbitos por duas semanas ainda é um horizonte a ser alcançado.

Figura 1: Óbitos acumulados de Teresina-PI.

A partir da análise do resultado anterior, fez-se uma avaliação comparativa do número de óbitos absolutos acumulados entre as capitais Teresina, Fortaleza e São Luís (Figura 2). Na capital do Maranhão, São Luís, o primeiro óbito foi registrado no mesmo dia que os dois casos de Teresina, 29 de março; já em Fortaleza os primeiros 3 (três) óbitos aconteceram 3 dias antes, 26 de março. A progressão do número absoluto de casos, contudo, aconteceu de forma distinta nas três cidades. Em São Luís, um mês após o primeiro registro de óbito, verificou-se 149 óbitos acumulados, já em Fortaleza registrou-se 295 óbitos. Em 29 de maio, São Luís apresentava 521 óbitos acumulados e Fortaleza, em 26 de maio, apresentava 1.769 casos. Na última verificação para a elaboração dessa análise, percebeu-se um número de casos de óbitos acumulados de 771 em São Luís e de 3.244 casos em Fortaleza. Percentualmente, verificou-se um aumento de 77 mil vezes em São Luís e de aproximadamente 108 mil vezes em Fortaleza, em quase 3 meses.

Figura 2: Óbitos acumulados por Covid-19 em Teresina, Fortaleza e São Luís.

Os dados anteriores, contudo, devem ser analisados com cautela, uma vez que são apresentados em valores absolutos, sem considerar a quantidade total de residentes nas cidades analisadas. Assim, analisou-se também o número de óbitos de cada cidade por 100 mil habitantes (Figura 3). Verificou-se que Fortaleza apresenta uma taxa de óbitos por Covid-19 de 35,523/100 mil hab.; São Luís, por sua vez, apresenta uma taxa de 10,897/100 mil hab.; e Teresina apresenta, valores muito similares ao da capital maranhense (10,235/100 mil hab.).


Figura 3: Número de óbitos acumulados em Teresina, Fortaleza e São Luís.

Quando comparou-se os óbitos semanalmente, nas mesmas capitais, verificou-se que Fortaleza atingiu um pico no acumulado de 7 dias, em 29 de maio, apresentando, a partir desta data, valores decrescentes, até atingir, na última análise realizada para esta Nota Técnica, uma média de 27 casos semanais (Figura 4). Já a capital do Piauí e a do Maranhão apresentaram taxa de crescimento semanal do número de óbitos semelhantes, com valores mais elevados durante a segunda quinzena de abril e a primeira quinzena de maio na ilha de São Luís, quando, a partir do dia 22 de maio, houve um cruzamento das curvas nas taxas de óbitos dessas duas capitais e, a partir desta data, Teresina passou a apresentar valores ligeiramente superiores (Figura 4).

Figura 4: Óbitos diários acumulados a cada 7 dias em Teresina, Fortaleza e São Luís.

Após a verificação de que Teresina e São Luís passaram a apresentar dados similares a partir da segunda quinzena de maio, realizou-se a análise comparativa apenas entre essas duas capitais (Figura 5). A partir destas análises, observou-se que ambas as capitais passaram a apresentar valores absolutos crescentes e bastante semelhantes, com alternância pontual entre as mesmas.

Figura 5: Óbitos diários acumulados a cada 7 dias em Teresina e São Luís.

Contudo, quando avaliou-se os valores de óbitos diários nas duas capitais, Teresina e São Luís, levando em consideração a população das mesmas (taxa/100 mil habitantes), percebeu-se que Teresina passa a apresentar valores superiores aos de São Luís (34 casos/100 mil hab. versus 15,7 casos/100 mil habitantes, respectivamente - Figura 6).

Neste cenário, surge o questionamento: qual ou quais eventos ocorreram na capital do estado do Maranhão que permitiram essa inflexão na curva de óbitos? Analisou-se os dados do Painel Covid-19 do Maranhão e observou-se que não houve mudança nas taxas de infecção nos chamados grupos de risco (idosos e pessoas com comorbidades associadas). Entretanto, pelos decretos publicados no site da Secretaria de Estado da Saúde do Maranhão, verificou-se que no dia 03 de maio foram estabelecidas as medidas preventivas e restritivas aplicadas por 10 dias na Ilha do Maranhão (São Luís, São José de Ribamar, Paço do Lumiar e Raposa), em virtude da Covid-19, o chamado lockdown (Decreto nº 35.784, de 03 de maio de 2020, do estado do Maranhão). Doze dias depois do fim desse período de medidas mais restritivas de isolamento social, verificou-se esse ponto de inflexão da curva, quando comparado com a cidade de Teresina-PI.

Figura 6: Óbitos diários acumulados a cada 7 dias em Teresina e São Luís, considerando a população das cidades (óbitos/100 hab).

Quando os óbitos diários foram avaliados, considerando a população da cidade, e reinserido Fortaleza, verificou-se também uma queda na taxa diária/100 mil hab. (Figura 7). No caso de Fortaleza, o ponto de inflexão da curva se deu a partir do dia 29 de maio de 2020. Novamente, analisou-se os possíveis fatores que levaram a essa inflexão da curva e constatou-se, assim como no caso de São Luís, que o decreto que determinava medidas mais rígidas de isolamento social publicado em 05 de maio (Decreto nº 33.574, do estado do Ceará), foi, possivelmente, determinante para essa redução no número de óbitos diários.

Figura 7: Óbitos diários acumulados a cada 7 dias em Teresina, Fortaleza e São Luís, considerando a população das cidades (óbitos/100 mil hab).

3. Casos de óbitos por Covid-19 nos estados do Piauí, Maranhão e Ceará

Quando os cenários em que as cidades do interior dos três estados, Piauí, Maranhão e Ceará, são incluídas, verificou-se que a mudança na trajetória da curva do estado do Ceará inicia também no dia 29 de maio, assim como a da capital, Fortaleza. O número de óbitos diários no estado do Ceará apresenta redução continuada, embora com valores absolutos ainda mais elevados que os estados do Piauí e do Maranhão. Por outro lado, os dois últimos estados, embora apresentem valores absolutos diários inferiores aos do Ceará, seguem em trajetória ascendente constante (Figura 8).

Figura 8: Óbitos diários acumulados cada 7 dias no Piauí, Maranhão e Ceará.

Analisado o cenário em que se considera a taxa de óbitos por 100 mil habitantes, observou-se que a trajetória da curva do estado do Ceará continua descendente, com 72,7 casos/100 mil hab (Figura 9), na última análise realizada para a elaboração desta nota técnica, enquanto o estado do Maranhão parece atingir um platô a partir do início do mês de junho, apresentando uma taxa atual em torno de 52 casos/100 mil hab. O estado do Piauí, por sua vez, segue com trajetória ascendente da curva, ultrapassando, em números relativos, o estado do Maranhão, a partir do dia 08 de junho, com 58 casos/100 mil hab. na última análise realizada.

Figura 9: Óbitos diários acumulados a cada 7 dias no Piauí, Maranhão e Ceará, considerando a população dos estados (óbitos/100 hab).

4. Conclusão

Analisados coletivamente, os dados indicam que Teresina e, sobretudo, as cidades do interior do Piauí, segue com trajetória ascendente constante do número de óbitos. A fase mais crítica da pandemia da Covid-19 ainda pode se prolongar, diferentemente das capitais São Luís e Fortaleza, que tomaram medidas mais rígidas de distanciamento social, promovendo uma inflexão na trajetória da curva de óbitos por Covid-19, sobretudo quando avaliamos os dados levando em consideração o tamanho da população das cidades e estados analisados.

Assim, os dados indicam que as medidas rígidas de distanciamento social poderiam, também, promover inflexão da curva de óbitos em Teresina, assim como em todo o estado do Piauí.

Os gráficos, mapas e tabelas estão licenciados como Atribuição-Não Comercial CC BY-NC. Esta licença permite que outros remixem, adaptem e criem, desde que atribuam o devido crédito, e desde que para fins não comerciais.

Para compreensão detalhada desta nota técnica

Equipe - Sala de Situação

  • Beatriz Fátima Alves de Oliveira - Enfermeira e Pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz Piauí

  • Bruno Guedes Alcoforado Aguiar - Departamento de Medicina Comunitária (UFPI); Centro de Inteligência em Agravos Tropicais Emergentes e Negligenciados (CIATEN).

  • Emidio Marques de Matos Neto - Departamento de Educação Física, Núcleo de Estudos em Saúde Pública (NESP).

  • Flávio Furtado de Farias - Curso de Fisioterapia, Universidade Federal do Delta do Parnaíba.

  • Francisco de Tarso Ribeiro Caselli - Curso de Engenharia de Produção (UFPI).

  • Jefferson Cruz dos Santos Leite - Departamento de Matemática (UFPI).

  • Juliana Gonçalves de Sousa - Geoprocessamento (IFPI).

  • Juliana Soares Severo - Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Alimentos e Nutrição (UFPI).

  • Maria Zilda de Oliveira Conceição Lima - Engenharia Cartográfica e de Agrimensura (UFPI)

  • Osmar de Oliveira Cardoso - Núcleo de Estudos em Saúde Pública-NESP, Departamento de Bioquímica e Farmacologia (UFPI).

  • Péricles Luiz Picanço Jr. - Departamento de Transportes (UFPI).

  • Rita de Cassia de Lima Idalino - Curso de Estatística (UFPI).

  • Roniele Araújo de Sousa - Núcleo de Estudos em Saúde Pública-NESP (UFPI).