Sala de Situação

Publicada em 08/06/2020

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PAINEL – UFPI – COVID-19

Ordinariamente atualizado a cada duas semanas, a não ser que precise de dados emergenciais.




👉Destaques da nota

  • Considerando número de casos, todas as Regionais de Saúde do Piauí encontram-se em situação de alta e muito alta propagação, exceto a Regional de Saúde das Mangabeiras que apresenta uma situação de alerta.

  • Considerando número de internações, a regional Chapada das Mangabeiras apresentou valores muito altos. As regionais localizadas ao norte do estado apresentaram alta propagação.

  • Considerando número de óbitos, destacam-se as regionais de Cocais, Vale dos Rios Piauí e Itaueiras, Tabuleiros do Alto do Parnaíba e Serra da Capivara com aumento superior a 50% em relação à semana epidemiológica anterior.

  • Sobre a capacidade do sistema, todas as regionais de saúde estão com mais de 50% de leitos clínicos livres. O Piauí apresentou 64% dos leitos clínicos livres.

  • Sobre leitos de terapia intensiva, a Regional de Chapada das Mangabeiras não conta com nenhum leito de UTI. Serra da Capivara (100%) e Vale do Canindé (100%) foram as regionais que tiveram melhores percentuais em leitos UTI livres.

  • A taxa de leitos no PI tem aumentando com a chegada de novos respiradores, porém, com taxa de 12,13 leitos com respiradores/100 mil habitantes no estado, ainda é menor que a média nacional de 31,6/100 mil habitantes.


Apresentação

O Grupo de Trabalho do Eixo 3 - Sala de situação, do Comitê Gestor de Crise da Universidade Federal do Piauí, integrado por representantes de diversas instituições de pesquisa, vem estudando a evolução e os aspectos da pandemia causada por SARS-CoV-2. Na última semana, por conta da redução no ritmo de crescimento da doença em algumas localidades, vários Municípios e Estados brasileiros anunciaram planos e medidas para flexibilização do distanciamento social e reabertura de algumas atividades comerciais.

Com intuito de embasar o processo de reabertura e a tomada de decisão dos gestores, as Secretarias de Saúde dos Municípios e dos Estados estabeleceram diversos critérios quantitativos para direcionar a flexibilização do isolamento e o retorno das atividades econômicas, sem aumentar o risco de saúde. Embora diversas metodologias e matrizes tenham sido elaboradas, em geral, a avaliação sistemática dos critérios estabelecidos é baseada na evolução e propagação da doença, capacidade de resposta dos serviços de saúde e medidas de isolamento social.

De um modo geral, para cada dimensão estabelecida nos protocolos, diferentes indicadores estão sendo propostos e a avaliação combinada entre eles resultam em categorias de risco para saúde. Ao final, conforme o grau ou categoria de risco em saúde, cada localidade é comumente classificada em baixo, médio ou alto risco, mas essa classificação não é homogênea entre os planos apresentados. Por exemplo, o modelo de distanciamento apresentado pelo Rio Grande do Sul considera bandeiras nas cores amarela (baixo), laranja (médio), vermelha (alto) ou preta (altíssimo), enquanto, o Comitê Científico do Consórcio Nordeste para a covid-19 usou uma matriz de classificação de risco com as cores verde (baixo), amarelo (médio ou alerta) e vermelho (alto). Além dos pontos de corte ou intervalos entre as categorias de risco, a seleção dos indicadores mais sensíveis e os pesos, também não são consenso entre os planos estabelecidos. Para dimensão de saúde, o Rio Grande do Sul adotou 11 indicadores, Comitê Científico do Consórcio Nordeste usou 13 e o estado do Piauí 06 indicadores.

O Plano de Retomada Organizada no Piauí covid-19 (PRO PIAUÍ), lançado na primeira semana de junho, estabeleceu critérios para flexibilização gradual do isolamento social, seguindo parâmetros epidemiológicos para decisão de quando a retomada deverá acontecer, parâmetros de saúde para como a retomada deve ocorrer e os parâmetros econômicos sinalizando onde deve ocorrer. A tomada de decisão para flexibilização deverá, então, ser baseada em 30% dos impactos econômicos e 70% nos impactos epidemiológicos. Considerando os impactos epidemiológicos, foram estabelecidas duas dimensões com os seguintes indicadores:

a) Propagação da doença – a) Nº de casos novos nos últimos 7 dias / Nº de casos novos nos 7 dias anteriores (peso 4); b) Nº de internações nos últimos 7 dias / Nº de internações nos 7 dias anteriores (peso 4); e c) Nº de óbitos nos últimos 7 dias / Nº de óbitos nos 7 dias anteriores (peso 2).

b) Capacidade de resposta dos serviços de saúde – a) Taxa de leitos livres UTI covid-19 (%) (peso 4); b) Taxa de leitos clínicos livres covid-19 (%) (peso 4); e c) Leitos com respirador / 100 mil hab (peso 2).

A segmentação do risco de saúde será calculada por meio de uma matriz considerando a combinação desses indicadores, sendo baixo risco as localidades com alta capacidade do sistema e baixa propagação da doença e alto risco aquelas com baixa capacidade do sistema e alta propagação da doença. No entanto, os pontos de corte ou intervalos para classificar os indicadores não foram apresentados.

Com o lançamento do plano de retomada apresentado para o Estado do Piauí, a sala de situação do Comitê Gestor de Crise da Universidade Federal do Piauí se propôs a avaliar os indicadores epidemiológicos, ajustando os pontos de cortes em 4 categorias em razão dos valores de corte não terem sido divulgados. No entendimento da equipe da sala de situação, para indicadores de propagação da doença, valores abaixo de 1 indicam redução em relação à semana anterior e valores acima de 1 indicam aumento dos indicadores. Ao final, foram consideradas as seguintes categorias:

a) Propagação da doença – Muito baixa propagação (pontuação <0.75), Baixa propagação, mas em situação de alerta (pontuação >=0.75 e <= 1.0), Alta propagação (pontuação >1 e <= 1.5), e Muito alta propagação (pontuação >1.5).

b) Capacidade dos serviços de saúde – Alta (75 a 100% leitos livres), Moderada (50 a 75% leitos livres); Baixa (25 a 50% leitos livres), e Muito Baixa (>25% dos leitos livres).

Os dados finais encontram-se no Anexo I.


2 Indicadores de propagação

2.1 Casos Novos

A figura 1 mostra os valores do número de casos novos por covid-19 dos últimos 7 dias (31/05 a 06/06) em relação ao número de casos novos por covid-19 dos 7 dias anteriores (24/05 a 30/05) nas Regionais de Saúde do Piauí. Observou-se que todas as Regionais de Saúde do Piauí encontram-se em situação de alta e muito alta propagação, exceto a Regional de Saúde das Mangabeiras que, apesar da redução, apresenta uma situação de alerta.


Fonte: MS e SESAPI, 2020.

Figura 1: Razão entre casos novos por covid-19 dos dias 31 de maio a 06 de junho e casos novos dos dias 24 a 30 de maio, segundo Regionais de Saúde do Piauí, 2020.


2.2 Internações

Os valores do segundo indicador apresentado na Figura 2 mostram a relação entre o número de internações dos últimos 7 dias (31/05 a 06/06) e o número de internações dos 7 dias anteriores (24/05 a 30/050). Nesse indicador, a regional Chapada das Mangabeiras apresentou valores muito altos, ao contrário do que havia sido observado no indicador anterior. Enquanto as regionais localizadas ao norte do estado apresentaram valores entre 1 a 1,5, indicando valores maiores que na semana anterior.

Fonte: MS e SESAPI, 2020.

Figura 2: Razão entre internações dos dias 31 de maio a 06 de junho e internações dos dias 24 a 30 de maio, segundo Regionais de Saúde do Piauí, 2020.

2.3 Óbitos

O terceiro indicador para avaliar a propagação da covid-19 no Piauí foi construído a partir da relação entre o número de óbitos por covid-19 dos últimos 7 dias (31/05 a 01/06) e os óbitos por covid-19 dos 7 dias anteriores (24 a 30/05) (Figura 3). Nota-se um incremento no número de óbitos em todas as regionais, exceto em Vale do Rio Guaribas, Vale do Canindé e Chapada das Mangabeiras. Destacam-se as regionais de Cocais, Vale dos Rios Piauí e Itaueiras, Tabuleiros do Alto do Parnaíba e Serra da Capivara com aumento superior a 50% em relação à semana anterior.

Fonte: MS e SESAPI, 2020.

Figura 3: Razão entre óbitos novos por covid-19 dos dias 31 de maio a 06 de junho e óbitos novos dos dias 24 a 30 de maio, segundo Regionais de Saúde do Piauí, 2020.

3 Indicadores de capacidade de resposta dos serviços de saúde

3.1 Leitos clínicos

O primeiro indicador para avaliar a capacidade de atendimento aos casos de covid-19 no Piauí foi observado pelo percentual de leitos clínicos livres. A Figura 4 mostra os dados deste indicador no dia 06 de junho de 2020, de acordo com as Regionais de Saúde. Em geral, as regionais estão com mais de 50% dos leitos clínicos livres no estado, com destaque para a regional de Entre Rios que apresenta o maior número de leitos do Estado e se encontra nessa categoria.

Fonte: MS e SESAPI, 2020.

Figura 4: Percentual de leitos clínicos disponíveis para covid-19, segundo Regionais de Saúde do Piauí, 6 de junho de 2020.

3.2 Leitos UTI

O segundo indicador foi construído para avaliar a capacidade de resposta dos serviços de saúde usando o percentual de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) livres (Figura 5). No dia 6 de junho, o Piauí apresentava 42% dos leitos de UTI livres. Entre as regionais, Entre Rios, que apresenta o maior número de leitos de UTI, estava em situação de alerta (menos de 50% dos leitos livres). Além disso, Chapada das Mangabeiras apresentou um incremento no número de internações suspeitas ou por covid-19 em relação à semana anterior e não possui leitos de UTI.

Fonte: MS e SESAPI, 2020.

Figura 5: Percentual de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) disponíveis para covid-19, segundo Regionais de Saúde do Piauí, 6 de junho de 2020.


3.3 Taxa de leitos com respirador

O terceiro indicador utilizado para avaliar a capacidade de atendimento no Piauí foi a quantidade de leitos com respirador para cada 100 mil habitantes, apresentado na Figura 6 para o dia 6 de junho de 2020. No Piauí a taxa foi de 12,13 leitos com respiradores/100 mil habitantes. Entre Rios/Carnaubais/Vale do Sambito, regionais com maior quantidade de leitos, apresentaram uma taxa de 18,30 leitos com respiradores/100 mil hab. Em contrapartida, Cocais e Chapada das Mangabeiras, apresentaram as menores taxas de leitos com respiradores/100 mil hab.

Fonte: MS e SESAPI, 2020.

Figura 6: Taxa de leitos com respiradores (100 mil habitantes), segundo Regionais de Saúde do Piauí, 6 de junho de 2020.

4 Matriz entre indicadores de propagação e capacidade de resposta dos serviços de saúde

Considerando os 3 indicadores apresentados de propagação da covid-19 no Piauí e os 3 indicadores de capacidade do sistema, classificamos as regiões de saúde do estado em uma matriz de baixa e alta propagação por baixa e alta capacidade do sistema (Figura 7). Quanto mais acima, menor a propagação. Quanto mais abaixo, maior a propagação da doença e mais grave a situação. Quanto mais à direita, mais alta é a capacidade do sistema de saúde para atendimento. Quanto mais à esquerda, menor a capacidade de atendimento da região.

As regiões do vale do Canindé, Vale dos Rios Piauí e Itaueiras, Vale do Rio Guaribas, e a região da Serra da Capivara apresentaram melhores resultados de capacidade do sistema para a população local, mas contam ainda com alerta em relação à propagação do vírus. As demais regiões, configuram com propagação mais intensa da doença e com diminuição progressiva dos seus leitos e sistema de saúde.

Figura 7. Matriz de comparação entre os indicadores de propagação e a capacidade de resposta dos serviços de saúde, de acordo com as Regionais de Saúde do Estado do Piauí (período avaliado 31/05 a 06/06 em relação a 24 a 30/05 de 2020). Para mais detalhes: https://flo.uri.sh/visualisation/2752295/embed

5 Predições para o número de infectados e óbitos por covid-19

Os gráficos a seguir mostram a modelagem e a predição da série de casos de infectados e de óbitos por covid-19 no Piauí. Vale lembrar que em predição de séries temporais a tendência muda com o tempo, principalmente se as condições da dinâmica da série sofrerem modificações. O modelo é também orientado por dados, portanto, sua previsão é tão boa quanto forem os dados. Para tal, é feito a predição de curto prazo, para apenas 7 dias (IC95%), com intervalo de confiança de 95%.

5.1 Projeções do número de infectados

A Figura 8 apresenta a predição a partir do dia 7 de junho de 2020, até o dia 13 de junho de 2020. O modelo sugere para o dia 13 de junho um número de infectados entre 10.050 a 11.351. Por sua vez, a Figura 9 mostra o resultado do modelo para as últimas 4 semanas epidemiológicas, onde é possível verificar as predições dentro da região de confiança de 95%.

Figura 8: Predição do número de infectados na Semana 24

(a) Predição da semana 23

(c) Predição da semana 21

(b) Predição da semana 22

(d) Predição da semana 20

Figura 9: Predições das semanas anteriores

5.2 Projeções do número de óbitos

Os gráficos a seguir mostram a modelagem e predição da série de casos de óbitos por covid-19 no Piauí. A Figura 10 apresenta a predição a partir do dia 7 de junho de 2020, até o dia 13 de junho de 2020. O modelo sugere para o dia 13 de junho um número de óbitos entre 338 a 365. Por sua vez, a Figura 11 mostra o resultado do modelo para as últimas 4 semanas epidemiológicas, onde é possível verificar as predições de óbitos dentro da região de confiança de 95%.

Figura 10: Predição do número de óbitos na Semana 24

(a) Predição da semana 23

(b) Predição da semana 22

(c) Predição da semana 21

(d) Predição da semana 20

Figura 11: Predições das semanas anteriores

As predições ajudam no entendimento da disseminação da doença e velocidade de propagação. Uma extrapolação dos dados observados (reais) em relação a região de predição pode sugerir uma tendência de crescimento mais elevada ou mais moderada. Além disso, as predições, justamente com os indicadores, podem ser úteis para avaliar quais medidas podem ser tomadas em relação a distanciamento social, cuidados individuais, oferta de leitos, ocupação hospitalar e preparação de profissionais da saúde.

Considerações Finais

Considerando os pesos e a agregação dos diversos indicadores, nenhuma região do Piauí apresenta situação epidemiológica compatível com a reabertura das atividades econômicas;

As predições também indicam uma fase de crescimento do número de casos no Piauí, sem sinalização de estabilização do número de infectados ou óbitos;

Ressaltamos, no entanto, a importância de fazer uma revisão sobre os critérios estabelecidos para que estes sejam sensíveis à realidade recente e que possam embasar com segurança a tomada de decisão;

Para tanto, novos indicadores que possam medir infecções recentes como “Total de Casos Ativos (Confirmados por RT-PCR) até o último dia / (Total de recuperados nos últimos 50 dias)” podem ser incorporados;

Para dar magnitude às circunstâncias epidemiológicas, além da classificação em relação à semana anterior, é importante a comparação contínua com número habitantes, com a inclusão de índices como: “número de casos, óbitos ou SRAG nos últimos 7 dias para cada 100.000 habitantes”;

Medidas de isolamento e cooperação comunitária são fortemente sugeridas para melhores índices nas próximas semanas.

Anexo 1

Equipe - Sala de Situação

  • Beatriz Fátima Alves de Oliveira - Enfermeira e Pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz Piauí

  • Bruno Guedes Alcoforado Aguiar - Departamento de Medicina Comunitária (UFPI); Centro de Inteligência em Agravos Tropicais Emergentes e Negligenciados (CIATEN).

  • Emidio Marques de Matos Neto - Departamento de Educação Física, Núcleo de Estudos em Saúde Pública (NESP).

  • Flávio Furtado de Farias - Curso de Fisioterapia, Universidade Federal do Delta do Parnaíba.

  • Francisco de Tarso Ribeiro Caselli - Curso de Engenharia de Produção (UFPI).

  • Jefferson Cruz dos Santos Leite - Departamento de Matemática (UFPI).

  • Juliana Gonçalves de Sousa - Geoprocessamento (IFPI).

  • Juliana Soares Severo - Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Alimentos e Nutrição (UFPI).

  • Maria Zilda de Oliveira Conceição Lima - Engenharia Cartográfica e de Agrimensura (UFPI)

  • Osmar de Oliveira Cardoso - Núcleo de Estudos em Saúde Pública-NESP, Departamento de Bioquímica e Farmacologia (UFPI).

  • Péricles Luiz Picanço Jr. - Departamento de Transportes (UFPI).

  • Rita de Cassia de Lima Idalino - Curso de Estatística (UFPI).

  • Roniele Araújo de Sousa - Núcleo de Estudos em Saúde Pública-NESP (UFPI).